
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre as criaturas, amar?amar e esquecer,
amar e malamar,
amar,desamar,amar?
Sempre, e até de olhos vidrados,
amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho,em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, o que, na brisa
marinha,
é sal, ou necessitam de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mai e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa
amar a água implícita,
e o beijo tácito,
e a sede infinita.
(Drummond/Antologia Poética - 1960)
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